Lutando contra adversário mais baixo.



1).- Um pouco de biologia
Tomemos dois boxeadores de mesmo peso, mas altura diferente. A não ser raras exceções, podemos afirmar que:

  • O boxeador baixo tem mais velocidade do que o boxeador alto.
    A razão para essa diferença reside no fato de que os movimentos do corpo resultam de comandos que nosso cérebro envia a nossos músculos por meio de sinais elétricos que viajam através dos nervos. A velocidade desses sinais é relativamente lenta e assim o tempo de percurso do sinal em um nervo comprido (como os do boxeador alto) é apreciavelmente maior do que num nervo curto (como os do boxeador mais baixo).

  • O boxeador alto tem maior pegada do que o boxeador baixo.
    Precisamos partir do fato de que existem muitos tipos de força, sendo que a força importante para os socos é a força de explosão. A experiência mostra que entre dois boxeadores de mesmo peso, o que tem músculos mais compridos terá soco mais forte (maior pegada). Os músculos arredondados e volumosos do boxeador mais baixo são mais apropriados para força estática, como a envolvida no "levantar sacos de cimento".


2).- Quem fica com vantagem na luta?
O resultado de cada luta depende de uma grande quantidade de fatores, sendo que um fator que foi decisivo numa luta pode não ter importância numa outra, principalmente se essa luta for contra outro adversário. Apesar disso, selecionamos quatro fatores associados à características dos boxeadores e que tendem a determinar vantagens decisivas numa luta típica entre pugilistas de altura diferente:

  • vantagem da velocidade:
    como já foi colocado e até justificado, o boxeador mais baixo tende a ser mais rápido que o boxeador mais alto
  • vantagem da pegada:
    também já explicamos que o boxeador mais alto tende a ter mais pegada que o mais baixo
  • vantagem da distância:
    obviamente, o boxeador mais alto quase sempre terá braços mais compridos e então pode lutar à uma distância tal que ele pode dar socos sem que seu adversário mais baixo consiga atingí-lo
  • vantagem do esforço:
    para que o boxeador mais baixo chegue à uma distância suficiente para atingir seu adversário mais alto, ele precisa se aproximar; isso envolve um duplo desgaste: o da movimentação rápida e o resultante dos socos que poderá sofrer ao encurtar a distância



conclusões iniciais:

Numa luta típica, o BA (Boxeador mais alto) tem três vantagens contra apenas uma do BB (Boxeador mais baixo). O combate entre eles sempre inicia com o BA em vantagem: ele pode bater sem ser atingido. O BB para desfazer essa vantagem tem de gastar energia extra com movimentação e corre o risco de ser atingido ao encurtar a distância de combate

exemplo:
Um BB muito importante é Mike Tyson. Em sua juventude, ele não se enquadrava exatamente na caracterização acima, na medida em que ele tinha duas e não apenas uma vantagem contra seus adversários: velocidade e pegada. Essas duas poderosas vantagens, por vários anos lhe deram a vitória. Contudo, à medida que foi envelhecendo e se desgastando com uma vida incompatível com um atleta, a velocidade lhe abandonou e isso fez com que suas lutas não terminassem mais nos primeiros rounds e, desde modo, a desvantagem do esforço despreendido ficou decisiva. Ele passou a perder quase todas suas lutas, principalmente quando seus adversários BA sabiam explorar a vantagem distância nos rounds iniciais.

3).- O fator experiência
Um boxeador que tem uma característica física pouco comum está acostumado a lutar com adversários "normais", enquanto que esses tendem a se sentir muito desconfortáveis e até perdidos ao enfrentá-lo.

O exemplo mais conhecido desse fenômeno é o do boxeador canhoto: a maioria de suas lutas são contra adversários dextros, enquanto que o boxeador dextro tem pouca experiência em enfrentar canhotos. Uma situação análoga ocorre com os boxeadores muito altos ou muito baixos: eles estão bastante acostumados a enfrentar boxeadores de altura normal, mas esses tem pouca experiência em enfrentar adversários muito altos ou muito baixos.

Assim, o fator experiência é muito importante, principalmente quando se luta contra boxeadores excepcionalmente altos para seu peso. Contudo, somos de posição que as quatro características introduzidas acima são mais decisivas em casos normais, principalmente no boxe olímpico, onde as federações tendem a organizar lutas entre boxeadores com número de lutas realizadas semelhante, conforme dita o artigo primeiro do regulamento de boxe da CBBoxe (o qual divide os competidores em níveis: a-infantil, b-Cadete, c-Juvenil, d-Adulto, e-Estreantes, f-Novíssimos, g-novos, h-masters.

4).- A luta típica entre BA e BB: decidida pela movimentação

  • Como o BA pode explorar suas vantagens?

    O BA deve lutar à distância e ter a iniciativa da luta. Para tal, ele deve usar golpes retos (jabs e diretos) tanto para marcar pontos como para evitar que seu adversário encurte a distância e consiga golpeá-lo. Esses golpes retos devem ser aplicados em no máximo sequência de três, para então se deslocar, evitando ser um alvo fixo. O BA deve procurar fazer com que a luta seja uma contínua alternância de sequência de golpes retos e de deslocamentos seus.

  • O que fazer quando o BA perde suas vantagens?

    O grande objetivo do BB é sair da luta à longa distância, na qual ele está em desvantagem uma vez que assim não pode atingir o BA.
    Na eventualidade de o adversário BB conseguir ficar à média distância, o BA deve aplicar ganchos abertos e cruzados em direção ao queixo e à cabeça seguidos de deslocamento lateral. Se o BB tiver sucesso de chegar à curta distância, o BA deve aplicar uppercuts seguidos de deslocamento lateral, evitando o agarramento (clinch).

5).- Lutas atípicas
Encaixamos neste caso as lutas em que ao menos um dos dois boxeadores não tem as vantagens usuais que apontamos acima, seja por anormalidade anatômica (tal como um BB de braços muito compridos), seja por ter adotado um estilo de luta totalmente inadequado à sua altura.

Supondo que o BA tenha as vantagens usuais, um adversário BB com características não comuns pode ser

  • um BB pouco perigoso quando for lento ou/e quando lutar apenas à longa e média distância.
    Em tais casos, tudo o que o BA tem de fazer é seguir as recomendações acima, dando um maior grau de agressividade a seu ataque.
  • um BB perigoso quando, semelhantemente ao jovem Mike Tyson, além de rápido, for pegador.
    Dada a vantagem da distância para o BA, o BB terá de fazer um esforço maior, mas a menos que esteja mal preparado fisicamente, o desgaste do BB não deve ser um fator decisivo em luta de amadores (ao contrário do que ocorre em lutas de profissionais, às quais - segundo as Regras da CBBoxe, Cap. X: Duração dos Combates, Art. 31 - podem ir de quatro a doze rounds). Assim, contra um tal BB, o BA deverá ter muita cautela e seguir as recomendações acima acrescidas da necessidade de movimentação bastante rápida.

Existem outras possibilidades teóricas de lutas atípicas, mas muitas dessas combinações raramente ocorrem na prática.



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