Evolução do boxe com luvas.

Neste artigo, apontaremos os grandes passos da mudança do estilo boxe "sem luvas" para o "com luvas". Para isso, nos basearemos nas detalhadas e extensas análises, realizadas pelo grande historiador Michael Hunnicut, de gravuras, filmes e descrições de lutas de boxe no período de 1900 a 2004. Resumiremos as mudanças que Hunnicut identificou, selecionando para comentar:

   -- guarda e posicionamento das mãos
   -- deslocamentos laterais
   -- quantidade de socos por round
   -- uso de combinações de socos
   -- socos curtos e o infighting

Conforme vimos em matéria anterior (Surgimento do boxe com luvas), a transição do prize fighting (ou boxe sem luvas) para o boxe com luvas ocorreu aproximadamente entre 1870 e 1890, com a adoção das Regras de Queensberry.

Nos primeiros tempos: as grandes novidades, eram a obrigatoriedade do uso de luvas e os rounds de duração fixa (3 minutos). Continuou o costume de não ser estabelecido o número de rounds da luta; esta devia terminar somente com um nocaute, desistência ou intervenção da polícia. Eram comuns lutas durarem 20 rounds, 45 ou mais.

Enquanto não se passou a fixar de antemão o número de rounds das lutas (o que só se tornou comum lá por 1920), a maior parte do treinamento era dedicado ao condicionamento físico e do modo feito na época do boxe sem luvas. Contudo, na medida em que foram se conscientizando das liberdades e limitações das novas regras, as inovações técnicas logo passaram a ser alvo de atenção crescente e isso levou a uma gradativa mudança no estilo de luta, já a partir de cerca de 1900, como passaremos a mostrar.

Guarda e posicionamento das mãos

A mais evidente característica dos boxeadores sem luva era sua guarda: o tronco ficava inclinado para trás (era o modo de proteger o plexo solar e de evitar cortes no rosto), com o peso do corpo sobre a perna direita, a qual ficava atrás e na mesma vertical que a cabeça; os braços estendidos para frente, na altura da barriga ou peito, e em constante movimentação: ameaçando dar socos ou bloqueando socos. Na hora da aplicação do soco, havia uma troca de peso entre as pernas, o que possibilitava levar o peso do corpo junto com o soco. Na hora de se defender, as mãos subiam da altura da barriga ou peito para a altura da cabeça, objetivando bloquear ou desviar os socos com os ante-braços.

As Regras de Londres (1838) proibiram a luta de agarramento, o que fêz com que a guarda ficasse mais vertical e as mãos descessem: a esquerda mais a frente e a direita protegendo o plexo solar. Essa guarda favoreceu o surgimento das esquivas de cabeça.

A guarda moderna teve como principal pioneiro Jim Corbett que, em 1892, se tornou o primeiro campeão do boxe com luvas. Outro boxeador que muito influiu na mudança de guarda foi Jack Johnson (campeão mundial entre 1908 e 1915).

Gradativamente, as mãos passaram a ficar mais acima. Lá por 1920, já era comum se usar a mão direita em posição de bloqueio e a esquerda na altura do peito, de modo a facilitar o deslocamento de pernas, corpo e cabeça. Por cerca de 1930 tornou-se padrão conservar as duas mãos na altura da cabeça ao longo de toda a luta.

Deslocamentos laterais

A desvantagem da guarda da época sem luvas era a pouca mobilidade permitida: tipicamente, avançar ou recuar. Lá por 1780, o grande boxeador Daniel Mendoza inventou o side-step (passo ao lado).

A guarda quase moderna de Jim Corbett já lhe permitia os deslocamentos laterais. Por cerca de 1920 os deslocamentos laterais e o side-step (passo ao lado) eram de uso comum.

Quantidade de socos por round

No período do boxe sem luvas, o estilo de lutar dependia muito da necessidade de se proteger as mãos ao longo dos muitos rounds da luta: dava-se menos socos por round e de preferência em partes macias do corpo (como no plexo solar). Naquela época, o boxeador tinha de ter muita malícia e ser igualmente capaz de aplicar e escapar dos socos. A luta era bastante rápida, mas com muito mais fintas do que socos.

Com a introdução das luvas, logo se percebeu que podia-se dar um maior volume de socos, bem como novos tipos de socos. Por cerca de 1910 já tínhamos lutas onde os boxeadores davam uma média de cerca de 80 a 100 socos por round, e isso ao longo de 25 ou mais rounds. Por exemplo, a disputa do título de campeão dos leves em 1910 (entre Ad Wolgast e Bat Nelson) durou 42 rounds, sendo que até o round 39 a média de socos foi de 85 por round. Compare com a média de 51 socos por round dados por Oscar de la Hoya nos 12 rounds de sua luta contra Shane Mosley!

Entre 1920 e 1930 ficaram proibidas as lutas de mais de 20 rounds. Isso, segundo Hunnicut, tornou o preparo físico ficou menos importante do que a preparação técnica, o que deixou os boxeadores menos resistentes, capazes de dar menos socos por round.

Uso de combinações de socos

Na época do boxe sem luvas, os socos eram diretos isolados, misturados com socos ao corpo e alguns um-dois. As luvas deram a oportunidade de surgirem as primeiras combinações de dois a três socos. Por cerca de 1930, já era de uso comum uma grande variedade de combinações e essas podiam envolver até quatro ou cinco socos.

Socos curtos e o infighting

Na época do boxe sem luvas, por influência da esgrima, preferia-se socos retos longos; os poucos socos curvos eram bastante abertos. Evitava-se o infighting (luta na curta distância) e o uso de ganchos, pois deixavam o lutador sujeito a projeções e a contra-golpes curtos e rápidos no estômago.

O uppercut foi inventado por Dutch Sam, um famoso peso leve de cerca de 1800, e depois muito popularizados por Jack Johnson, que o empregava com muito sucesso. Antes dele, Bob Fitzsimmons (campeão de 1897 a 1899), dono de uma tremenda pegada, muito popularizou outros socos curtos.

Kid McCoy, um meio-pesado que teve seu auge lá por 1900, foi considerado um verdadeiro artista no emprego do infighting: chegando junto do adversário, lhe aplicava uma saraivada de socos no corpo e uppercuts no queixo. Sua enorme fama, provocou muitos imitadores.

Como infighting é muito desgastante para ambos os lutadores, sua adoção generalizada ocorreu somente após a proibição das lutas com 20 ou mais rounds, lá por 1930.

Referências:
- Michael Hunnicut: The Development of Boxing Strategies, Styles and Techniques During the Gloved Era to Present--Part 1. IBRO Journal, 85, March 2005.
- Idem: The Development of Boxing Strategies, Styles and Techniques During the Gloved Era to Present--Part 2: The Era 1900-1915..


Texto: © 2010, pela Fed. Rio-Grandense de Pugilismo.
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