Relacionamento entre o boxe inglês e o pugilismo italiano.

Insistimos na denominação boxe inglês porque a mesma indica a origem do chamado boxe moderno e porque que existiram e existem inúmeros outros tipos de boxe, praticados em várias partes do mundo. Desses outros inúmeros tipos de boxe, três tiveram um relacionamento de confronto ou influência com o boxe inglês: o boxe italiano tradicional, o boxe francês e o boxe filipino. Nesta matéria, abordaremos o relacionamento boxe inglês x boxe italiano tradicional.

Por outro lado, como o boxe inglês é praticado na Itália dos dias de hoje e como iremos falar sobre o boxe que antigamente os italianos praticavam, iremos mencionar este último como pugilismo italiano, até para enfatizar que era um boxe sem luvas.

- Origem do pugilismo italiano:
foi o pugilismo herdado dos etruscos e dos romanos (o pugilatus cestis), somente que praticado com as mãos nuas ou com uma fina luva de couro, sem o cesto ("luva" incrustada de metais) que os antigos gladiadores usavam.

- Evolução do pugilismo italiano:
Dois fatores contribuiram para que o pugilismo italiano progredisse a partir do pugilatus cestis herdado dos romanos:
  1. as guerre di pugni:
    Na Idade Média, o carnaval era a festa mais popular. O maior e mais famoso carnaval era o da cidade de Veneza. O ponto alto do mesmo era a Moresca, a qual consistia de uma dança com espadas que era uma representação coreográfica das lutas entre os cristãos e os mouros, vinda dos tempos em que esses invadiram a região do Mediterrâneo.

    A Moresca era dançada por dois grupos: um representando os cristãos e outro os mouros. Um desses grupos era formado por castellani (gondoleiros e marinheiros de Veneza) e o outro por nicolotti (pescadores da região). Com o tempo, se formou uma forte rivalidade entre os castellani e nicolotti, a qual descambou para batalhas a porrete envolvendo centenas de pessoas e que passaram a ocorrer em pontes sobre os canais de Veneza. Ganhava o grupo que conseguia se adonar da ponte. O público chegava a 20000 ou 30000 pessoas.

    Entre 1500 e 1550, as autoridades de Veneza acabaram intervindo: batalhas somente em dias de festividades e sem porretes; somente podiam ser dados socos, eram as guerre di pugni. Ademais, juntaram jogos não violentos: regatas, provas de acrobacia, danças etc.

    Lá por 1600, as batalhas passaram a ser precedidas por duelos de pugilismo entre campeões. Essas lutas eram chamadas de "cimenti" (ensaios ou preparação). Como ser escolhido campeão era uma grande honra e costumava envolver o patrocínio de algum ricaço, inevitavelmente os pretendentes passaram a aprimorar o pugilismo.
  2. a scherma, ou esgrima italiana:
    contribuiu, e muito, para o aprimoramento do pugilismo, na medida em que nos fêz dar maior importância aos socos retos e aprender a colocar o peso do corpo nos socos.

- Características do pugilismo italiano:
As lutas dos cimenti das guerre di pugni eram divididas em assaltos (rounds). Os pugilistas lutavam pela honra e fama. O objetivo das lutas era o sangramento do adversário. Os pugilistas lutavam com a camisa amarrada na cintura (proteção dos rins) e tinham uma luva de couro fino (guanti) na mão direita (lá por 1700 passaram a usar luvas nas duas mãos). Os agarramentos e projeções eram condenados, pois eram vistos como uma maneira covarde de fugir dos socos do adversário.

Atualmente, existem vários grupos de tradicionalistas italianos tentando reconstruir (a partir de gravuras, estátuas e antigos relatos de lutas) o estilo e técnica do pugilismo italiano antigo. Segundo esses tradicionalistas, esse boxe era muito parecido com o boxe grego (pygmation), praticado nas primeiras olimpíadas. Isso equivale a dizer que era um boxe com uma guarda bastante alta (antebraços sobre a cabeça) e que aplicava socos tipo marteladas e giratórios, com grande velocidade. Confira as fotos abaixo baseadas no trabalho do grupo tradicionalista ArsDimicandi:



- O pugilismo e esgrima italianos influenciaram o boxe inglês:
Lá por cerca de 1700, a Inglaterra tinha grande intercâmbio comercial com as cidades italianas, com as quais trocava especiarias por lâ de carneiro. Alguns comerciantes ingleses, ao viajarem para lá, traziam relatos das exibições de luta dos italianos. Principalmente de sua muito evoluída esgrima.

Isso despertou a curiosidade do primeiro lutador que procurou aperfeiçoar as técnicas de lutas inglesas (espada, adaga, bastão, porrete e o pugilismo inglês arcaico): James Figg. Sua fama residia em sua habilidade com a espada e o bastão. Ele acabou indo a Itália (cerca de 1720) e lá estagiou com vários mestres de esgrima.

Voltando para a Inglaterra, passou a mostrar um estilo de pugilismo desconhecido dos ingleses: um estilo que dava preferência aos socos retos em vez dos mais lentos e ineficazes socos curvos tradicionalmente usados no pugilismo vale-tudo. Também, introduziu o costume de se usar a mão esquerda à frente, enquanto deixa-se a direita atrás como medida de seguranca, em caso a guarda seja penetrada. A razão maior da preferência era a possibilidade de se interceptar os ganchos e swings de direita.

As técnicas inovadoras de Figg foram enormemente melhoradas por seu aluno, Jack Broughton, o qual foi o primeiro inglês a se dedicar inteiramente ao pugilismo.

- O boxe inglês terminou com o pugilismo italiano:
Entre os comerciantes ingleses que viajavam até a Italia estava o aristocrata William Pulteney que em Veneza assistiu a várias lutas de pugilismo italiano. Ficou particularmente impressionado com o boxeador Tito Alberto di Carini, um gigantesco gondoleiro. Pulteney acabou trazendo o italiano para a Inglaterra e desafiou Figg a enfrentá-lo, em troca de uma polpuda bolsa.

Figg estava com 38 anos e acabou indicando um aluno seu, Bob Whittaker, para enfrentar o gigantesco gondoleiro. Assim que não era uma luta pelo título de campeão inglês e não era uma luta com Figg. Era, contudo, a primeira luta de pugilismo entre um inglês e um desafiante estrangeiro. Como tal, produziu grande sensação e os ingressos foram a uma libra, o que correspondia aos ganhos de cerca de uma semana de trabalho de um artesão. Apesar disso, a arena de Figg lotou bem antes do início da luta. Entre o público, sentado num trono improvisado, estava nada menos do que o Rei George II.

A luta envolveu dois grandes sustos nos ingleses. Primeiro, ao tirar a camisa e exibir sua imensa musculatura, o italiano produziu um OH! de espanto no público; segundo, já no primeiro soco o gigantesco gondoleiro atirou Whittaker fora do ringue. Contudo, o inglês se recuperou rapidamente, subiu ao ringue e, esquivando-se ao próximo golpe, acertou fortíssimo soco no estômago do italiano que o colocou fora de combate.

Especula-se que o resultado dessa luta teria repercutido muito entre os boxeadores italianos que teriam reconhecido a superioridade do estilo inglês e trocado seu estilo por esse. O que se tem de concreto é que por essa época o estilo italiano de boxe desapareceu, não se tendo certeza se por consequência da tal luta ou por efeito de proibição.

Referências.

- anonimo: Il derivato di violentissimi rituali
   site na Internet = ArsDimicandi, 2006.
- Manuela Simeoni: Tra Pygmachia e pugilatus caestis.
   site na Internet = www.ilguerriero.it, 2010.
- Anonimo: Battling at the Bridge: Stick Fights and Boxing Spectacles in Renaissance Venice.
  snt, 1669.
- Robert Davis: The Police and the Pugni: Sport and Social Control in Early-Modern Venice.
   Stanford Humanities Review, 6.2, 1998.
- Robert Davis: The War of the Fists.
   Oxford University Press, 1994.


Texto: © 2010, pela Fed. Rio-Grandense de Pugilismo.
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