Notas sobre a História do Boxe Gaúcho



Surgimento na década dos 30's

Provavelmente, o primeiro contato dos gaúchos com lutas de boxe foi a a partir dos noticiários filmados que se costumava exibir nos cinemas da época, os quais frequentemente traziam os principais lances das disputas de títulos mundiais. Logo, sem nenhuma orientação, alguns jovens passaram a imitar o que viam nesses filmes e isso levou-os a criar clubes de luta, como eram chamadas as academias na época. A próxima etapa foi a realização de "noitadas" de lutas entre membros de um clube contra os de outros.

A população, numa época sem os atuais entretenimentos de massa como a televisão, aceitou com entusiasmo a novidade e, no final da década dos trinta, Porto Alegre já contava com vários "estádios" para realização de "noitadas" de boxe: o Alhambra ( no local onde fica a atual Reitoria da UFRGS ), o América ( no final da Avenida Borges de Medeiros ) e vários outros menos importantes. A quantidade de lutadores já era grande o suficiente para se fazer uma triagem das lutas: os mais experientes lutavam nos estádios do centro da cidade e deixava-se para os estádios de bairros as lutas com principiantes.

A federação dos gaúchos

No início da década dos quarenta, o boxe gaúcho não se limitava a Porto Alegre. Sentiu-se então a necessidade de uma entidade organizando sua prática. Assim, amparada pelo Art. 18 do Decreto Lei n° 3.199 de 14 abril de 1941, foi criada a Federação Rio-Grandense de Pugilismo, no dia 24 de março de 1944.

Uma orientação mais profissional: década dos 50's

No início dos anos 50's o boxe porto-alegrense vivia um momento de enorme atividade, existindo várias competições movimentando a cidade:
  • as semanais Olimpíadas Populares do Prof. Salgado, envolvendo provas de corridas, levantamento de peso, cabo de força, jogo de pulso e boxe
  • o Cinturão de Ouro, organizado pelo jornal Diário de Notícias e o qual chegou a construir um estádio na esquina de Av. Farrapos com São Pedro.
  • os Campeonatos Populares, organizados pela Folha da Tarde
No final dessa década, desapareceram os dois principais estádios: O Alhambra fechou para a construção de novos prédios da UFRGS, e o América sofreu um incêndio. Contudo, isso não afetou o entusiasmo. Pelo contrário, o então presidente da FRGP, Prof. Jorge Aveline, organizou um mutirão para construir um novo estádio, bem no centro da cidade, na esquina da Borges de Medeiros com Jerônimo Coelho: era o Estadinho, como ficou conhecido.

Com a inauguração do Estadinho, em 1955, a direção da FRGP tomou uma importante decisão: resolveu dar um basta nas improvisações e trouxe, do Rio de Janeiro, o experimentado técnico Aron Nowina. Esse orientava treinos diários, a partir das 17 horas, que eram bem frequentados por atletas e por público que chegava atingir a marca de mais de 300 pessoas.

Talvez o melhor boxeador que foi formado nesse período tenha sido Adriano Rodrigues, que tornou-se profissional em São Paulo, onde serviu de sparring para Éder Jofre, e depois foi para a Itália onde lutou por muitos anos e fêz boa reputação. Outros destaques foram Ely Souza, Almerón Santana e Sebastião Freitas, sendo que esses dois últimos chegaram a ganhar o campeonato sul-americano.

Época de ouro: início dos 60's

A posição privelegiada no centro da cidade, bem como sua mais apurada orientação técnica, féz do Estadinho uma verdadeira fábrica de boxeadores. A situação ficou ainda melhor com a abertura, em 1963 e no bairro Santana, de uma filial do Karak Boxe Club de São Paulo, tendo como treinadores os paulistas Emanoel Soares e Nelson de Andrade.

Os destaques do início dos 60's foram Carlos "Caruso" Dorneles, Carlos Tironi Braga "Xangai" e Antônio Santos, o "Trovão".

Decaimento com as lutas livre televisionadas: final dos 60's

Lá por cerca de 1965, surge o modismo das lutas livre que passam a ser televisionadas em horário nobre dos fins de semana. Rapidamente, elas fazem o boxe passar para um plano bem secundário. O Karak Club é o primeiro a fechar, em 1966, seguido do Estadinho, em 1967. Com isso, o boxe gaúcho iniciou uma caminhada em direção ao desaparecimento. Essa época, incidentalmente, também foi muito ruim para todo o boxe brasileiro.

Época do sacrifício: 70's

Na década dos 70's, o boxe porto-alegrense não desapareceu somente pela existência de uma pequena academia na sede da UGAPOCI ( União Gaúcha de Policiais Civis ) e pela abnegação e sacrifício de Antônio Santos, o Trovão, nessa época já atuando como treinador, já como Mestre Trovão, como muitos afetuosamente o chamam.
Seu exemplo foi seguido por vários outros treinadores, todos trabalhando em "academias" de estado físico bem precário: Luis José da Silva ( o Luizinho ), Sebastião Rodrigues de Freitas, Walter Lee, Dione Ferreira, Julio Antonio Ribeiro, Edgar Campos ( atuando em Pelotas, criou uma verdadeira família de boxeadores ), etc.

Nessa época, entre os boxeadores, mais se destacou nosso querido "Rapadura", o Izidro Costa, que participou, com sucesso, de alguns campeonatos brasileiros.

Ressurgimento: Academia Walter Lee, década dos 80's

Com o irrestrito apoio moral do Prof. Fontoura do Curso Pré-Vestibular Unificado, e o não menos essencial suporte econômico daquele curso, em 1981, na zona central de Porto Alegre, foi fundada uma muito bem equipada academia de boxe, com 400 metros quadrados de área: era a Academia Walter Lee, sob orientação técnica do treinador gaúcho Walter Lee. Em 1984, devido a problemas de saúde do Prof. Walter Lee, o comando técnico dessa academia passou para a responsabilidade de Mestre Trovão, o qual foi auxiliado por Júlio Antônio Ribeiro, Jocelito Ramirez Mesquita e Getúlio Caetano.

Durante o período de existência da Academia Walter Lee, 1981 a 1987, Porto Alegre voltou a presenciar torneios de boxe com grande público. Entre seus atletas, os que maior destaque tiveram foram: Antônio Farias (  o Antoninho ), Giovani Silveira e João Procópio Teixeira, os quais obtiveram vários títulos amadores estaduais e nacionais.

Com o inesperado fechamento, em 1987, da Academia Walter Lee, o boxe gaúcho voltou a passar por um período negro. Um elemento fundamental na resistência foi o, então, jovem treinador Paulo "Cafuringa" Petinga. Esse, apesar de todas as dificuldades da época, treinou Giovani Silveira e assim ajudou o mesmo a conseguir o título de campeão no Torneio Estímulo Kid Jofre, em São Paulo, ano de 1989.

Opção pelo amadorismo

No início da década dos noventas, o então diretor técnico da Federação Rio-Grandense de Pugilismo, Paulo Petinga ( o Cafuringa ), a partir de um exame da situação local e nacional do boxe, decidiu-se por dar ênfase ao boxe olímpico.

O primeiro atleta formado sob essa orientação - o Jocir Pereira ( "Junior" ) - teve grande sucesso, sendo o primeiro gaúcho a tornar-se campeão da Forja dos Campeões, de São Paulo, em 1994, e Atleta Destaque do RGS, no boxe, também em 1994.

No ano seguinte, na qualidade de técnico da seleção gaúcha de boxe que disputou o Campeonato Brasileiro de Boxe de 1995, "Cafuringa" recebeu o prêmio Destaque Técnico do ano, dado pela Confederação Brasileira de Boxe. Pouco depois, esse treinador passou a integrar a Comissão Técnica da CBB. Eram duas valiosas amostras do reconhecimento da evolução técnica do boxe olímpico gaúcho.

Esses bons resultados não significaram acomodação. Em 2000, a FRGP - sob a presidência de Vinício Guariglia - deu todo o incentivo para que o diretor técnico da FRGP acompanhasse a seleção brasileira de boxe em sua viagem de treinos e estudos em Cuba e República Dominicana. No ano seguinte, em 2001, a FRGP bancou todas as despesas para que "Cafuringa" voltasse à Cuba, para novos aperfeiçoamentos na Segunda Conferência Internacional de Educação Física e Alto Rendimento, na qual, incidentalmente, foi o único representante brasileiro.

Esses conhecimentos tem sido repassados aos demais treinadores gaúchos, através de cursos e simpósios semestrais ministrados na FRGP. Enquanto isso, os resultados mais qualificados começaram a surgir: em 2000 e 2001, pela primeira vez na história, tivemos boxeadores gaúchos participando das Olimpíadas ( José Archak ) e do Campeonato Mundial da AIBA ( Archak e Édson "Draggo" Claas ).

Certamente, a luta continuará !

REFERÊNCIAS

Reportagens dos jornais porto-alegrenses: Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Tarde, Zero Hora, etc e a coluna de boxe do Prof. Jorge Aveline, no Jornal do Comércio.

Toda sugestão ou correção para este resumo é bem vinda: frgp@portoweb.com.br.




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